Ideologia... Queremos uma pra viver?

O tema da ideologia, discursos ideológicos e inversões intencionais da prática social são temas históricos de preocupação da pesquisa no campo das Ciências Humanas e Sociais e também ajudam a compor o enredo de poesias, músicas, discussões e uma série de iniciativas. Entretanto, essa é uma discussão que está longe de atingir seu esgotamento, pois cada vez mais se acirra o caráter político, social e teórico das diversas opiniões e posicionamentos em jogo. Desde aqueles que não acreditam mais na existência da ideologia no mundo globalizado contemporâneo, até os que percebem neste discurso do “fim da ideologia” uma forte conotação e embasamento ideológico.
De qualquer modo a relevância está em analisar os pontos de vista e examiná-los a partir de seu vínculo direto com a materialidade em que a vida social e cotidiana se manifesta no mundo real. Esta é uma primeira característica de toda ideologia, ou seja, sua articulação com as condições concretas das relações humanas sociais. Não devemos entender a prática pela ideia, mas sim, compreender o plano das ideias e dos discursos em função da prática material. Não se trata, todavia, de um reflexo automático e espontâneo! Mas é preciso estar atento, no que concerne ao debate sobre ideologia, ao plano material. Vamos analisar um exemplo...
Uma série de reportagens, documentários, matérias jornalísticas, filmes, músicas, enfim, uma diversidade enorme de abordagens midiáticas nos mostram quase que semanalmente casos de pessoas que tiveram uma origem de pobreza e miséria material e graças a muito esforço próprio conseguiram alcançar hoje um patamar de riqueza e sucesso. Este é o enredo das histórias de peões de fazenda que hoje se tornaram grandes latifundiários e empresários, de trabalhadoras domésticas que na atualidade conseguiram atingir um patamar de riqueza enorme etc. Os exemplos são múltiplos e por aí a fila continua...
Entretanto, na realidade concreta e vivenciada por todos nós, trabalhadores e trabalhadoras, a vida se manifesta de modo diferente. Várias pessoas trabalharam – e ainda trabalham – duro durante toda a sua existência e não alcançaram uma situação de conforto material como aquele discurso pregava. Estas pessoas fracassaram? Estas pessoas não se dedicaram completamente? A resposta é óbvia... Trata-se de um discurso ideológico que não condiz com as condições em que a existência material opera e se desenvolve. Como explicar este caso então? Ora... Injetar a “esperança do bilhete dourado e premiado” (lembram-se do filme “A fantástica fábrica de chocolates”?) é uma forma muito eficaz de personalizar a “vitória” dos indivíduos e disseminar o consentimento. Em geral não se mostram as pessoas que ajudaram o peão e a empregada doméstica a “subirem na vida” e, além do mais, quanto mais acreditamos que um dia encontraremos nosso “bilhete dourado”, mais aceitamos as injustiças e aprendemos a conviver “pacificamente” com as perversidades oriundas das desigualdades sociais. Quem já andou ou anda de ônibus todos os dias sabe o que é ser humilhado e sentir uma amargura enorme dentro do peito em função do desrespeito que isso é...
Claro que muitos trabalhadores dentre nós não se rendem e se organizam de diversas maneiras contra esta situação, mas o discurso ideológico intenta o contrário, pois vincula uma ideia específica como se fosse universal. E quando o ciclo se fecha? Exatamente quando um trabalhador ou trabalhadora adquire um ponto de vista que não condiz com sua condição. Falas como “fazer greve pra quê?”; “se organizar em função de quê?” e “aquele pessoal se manifestando é tudo arruaceiro” exprimem o poder dessa ideologia que intenta a neutralização e apassivamento dos trabalhadores.
É possível sair totalmente das tramas ideológicas? Esta é uma pergunta mordaz e pertinente, porém precisamos refletir... Em primeiro lugar nunca é demais recordar o mito da neutralidade como Paulo Freire muito bem nos explica em “A importância do ato de ler”, isto é, qualquer discurso, prática ou opinião nunca é imparcial ou neutra. Sempre assumimos um posicionamento político, social e teórico estejamos nós conscientes ou não, portanto, não existe neutralidade! Dito isso é importante se atentar para o fato de que é preciso ter consciência e noção dos posicionamentos que estamos assumindo e essa é uma tarefa educativa que extrapola as paredes e o ambiente físico das escolas. Justamente por isso é tarefa educativa e não escolar, pois a educação é mais ampla que a escolarização e acompanha todo ser humano ao longo da vida.
Desse modo, vale dizer que o esforço é sempre válido em saber relacionar a intencionalidade e origem das ideologias, para que cada vez mais e coletivamente possamos desenvolver uma consciência prática e teórica que consiga desmembrar os enraizamentos e objetivos dos discursos ideológicos. Nenhuma ideologia consegue abranger a totalidade da vida social em seus múltiplos aspectos: culturais, sociais, políticos etc. Toda ideologia é sempre parcial e sempre fragmentária. Que todos nós possamos ter a humildade de desenvolver debates coletivos que se preocupem em não reproduzir preconceitos historicamente arraigados em nossa sociedade e com isso tenhamos a coragem ativa de mudar as coisas que precisam ser mudadas, pois embora o raio costume cair sempre de cima pra baixo, trata-se agora, de juntos e organizados desenvolvermos práticas e atitudes de que modifiquem as estruturas de baixo pra cima, pois como nos lembra Bertolt Brecht: “A um rio que tudo arrasta, se diz que é violento. Mas ninguém chama de violentas as margens que o aprisionam.”

Rafael Rossi
Docente do curso de Licenciatura em Educação do Campo na UFMS em Campo Grande – MS.
e-mail: r.rossi@ufms.br